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Quem disse que só tem um jeito?

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Quem disse que só tem um jeito?

#Opinião Marcos Archer e os extremistas brasileiros


E a Indonésia enfim levou à cabo a execução do brasileiro Marcos Archer, preso em 2004 por tentar entrar no país com 13 quilos de cocaína nos tubos de uma asa delta. Mesmo com todos os pedidos de clemência do governo brasileiro, de organizações de direitos humanos e da família e amigos do condenado, o presidente indonésio preferiu manter sua promessa de campanha - Joko Widodo foi eleito no ano passado com promessa de tolerância zero ao tráfico de drogas. Marcos passou por todas as etapas processuais indonésias e foi condenado em última instância à pena máxima. A execução aconteceu à meia noite e meia de domingo 18 de janeiro, 15:30 de sábado 17 de janeiro no horário de Brasília, por fuzilamento. 

Sim, houve uma mobilização intensa no Brasil em favor da vida de Marcos Archer, afinal trata-se de um brasileiro levado à pena de morte, o primeiro na história do país. Mas essa mobilização não atingiu a sociedade brasileira. Muito pelo contrário. Nas ruas e na internet o que se ouve e se lê é "merece morrer, mesmo", "quis mexer com drogas olha o que deu", "se aqui no Brasil fosse assim a coisa não estava essa bandalheira toda" e coisas do tipo. Sim, a mobilização nas ruas foi a favor do governo indonésio e pela execução de marcos.

Os que são a favor da pena de morte não são maioria no Brasil, pelo menos conforme a pesquisa Datafolha feita em outubro de 2014, que dizia que 52% dos brasileiros não concordam com a pena de morte mesmo em caso de crimes graves. Mas a minoria que é a favor é, como em todas as minorias, um grupo barulhento capaz de qualquer coisa para se fazer ouvir. E a internet, essa suposta terra-sem-lei onde se diz o que se quer sem punição alguma, parece ser o terreno perfeito para isso. O teor dos comentários, como era de se esperar, é violento. Pessoas não argumentam a favor da pena de morte, atacam os que são contra. Usam palavras baixas e chavões ("bandido bom é bandido morto", e por aí vai) para expor o que pensam. Ancoram-se em programas pseudo-jornalísticos de TVs popularescas com apresentadores que vivem de vociferar ódio, de dentro de seus estúdios confortáveis e com ar condicionado. 

É bem verdade que estamos tão acostumados com nossas leis avacalhadas que quando vemos uma lei ser aplicada com rigor nos assustamos. Estamos tão acostumados ao "jeitinho" brasileiro onde uma propina resolve tudo, onde um bom advogado livra de qualquer processo, onde um sujeito mata pessoas no trânsito e sai da cadeia pela porta da frente depois de pagar uma fiança miserável que nos escandalizamos com um crime sendo realmente punido. E sim, Marcos Archer cometeu um crime grave. 13 quilos de cocaína é uma quantidade muito grande, capaz de fazer estragos irreversíveis em muita gente. E pior ainda, transportar isso internacionalmente. Marcos foi além de tudo o que se considera como crime por qualquer sociedade civilizada. Sim, ele merece ser punido com rigor, mesmo que não tivesse histórico de tráfico de drogas. Se não tivesse sido pego, sabe-se lá quantos quilos mais ele iria continuar transportando mundo afora. Ele não matou ninguém, mas a quantidade de pessoas que poderia prejudicar caso essa droga chegasse ao seu destino seria incalculável. 

Mas aí entramos num dilema. A morte é realmente a punição mais eficiente? Será que existe alguém com direitos legais de tirar a vida de outro, independente do que esse outro tenha feito? Quando defendemos que alguém deve pagar com a vida, nos igualamos ao criminoso, pois essa é a sua lógica. Vivemos no século XXI, mas ainda temos a mentalidade dos antigos cangaceiros que matavam para vingar crimes cometidos. Ou para ir um pouco mais atrás na História encontramos essa mentalidade no Código de Hamurabi, em 1780 AC, que continha elementos da famosa lei de talião, que pregava a reciprocidade na punição de um crime, o famoso "olho por olho, dente por dente".

Se ainda não conseguimos evoluir para uma mentalidade em que a morte esteja prescrita como forma de punição não podemos nos chamar de sociedade desenvolvida. A Indonésia vai na contramão de um mundo que pede mais civilidade. E mesmo que se aplicasse o Código de Hamurabi na Indonésia, a punição a Archer foi completamente desproporcional ao crime cometido. Ele não matou nem feriu ninguém.

Mas os extremistas concordaram com a punição. Talvez os que concordem com a pena de morte a Archer são os mesmos que compram DVD pirata, baixam filme e música pela internet, compram equipamentos para piratear TV a cabo, se esbaldam na 25 de Março com bolsas Luis Vutton falsificada ou com Windows e jogos para PS4 pirateado, todos esses crimes também previstos em Lei, mas cuja punição, qualquer que fosse, seria considerada "exagerada". Sim, pois nossa ética é seletiva: apoiamos punição severa e inclemente para crimes cometidos pelos outros, apenas pelos outros, e preferencialmente se o outro for alguém que não conhecemos e de quem nunca ouvimos falar.

E assim caminha a sociedade brasileira. Rumo a não sei onde, mas caminha. Perigosamente.

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