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Blog Novas Ideias

Quem disse que só tem um jeito?

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Quem disse que só tem um jeito?

Agora é só vitória?


Enquanto eu esperava o ônibus no ponto para voltar do trabalho na sexta-feira passada passou um carro com uma musica alta. Apesar de não saber quem era a cantora, logo identifiquei que era uma música evangélica. A letra dizia algo como "agora é só vitória, só vitória, só vitória, a luta acabou, agora é só vitória". Eu cresci em igreja evangélica pentecostal e sei que a principal mensagem dos pentecostais (inclusive é o que os diferencia dos protestantes) é: tudo vai dar certo pra você, você não vai ter decepções na vida, você nunca vai perder uma guerra. Você é vitorioso sempre. Inclusive um programa de TV de um pastor pentecostal bem conhecido da mídia se chama "Vida Vitoriosa". Uma música de uma cantora bastante conhecida no meio gospel diz que "com Cristo é vencer ou vencer". Uma das ramificações da Igreja Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil, se chama "Vitória em Cristo", o que reforça a ideia da vida magnificamente boa, quando se está com Deus.

Aí eu vejo essas coisas e assimilo com o que eu aprendi quando criança e adolescente, e tento trazer essa mensagem para a vida real, para o dia a dia, para a minha segunda-feira e penso: em que mundo vivem essas pessoas que pregam que a vida é "só vitória"? Quando foi que se convencionou pregar que a vida de quem está com Deus vai ser sempre boa, e que os que temem a Deus será sempre de "vitórias? Não, a vida não é feita apenas de vitórias. Aliás, boa parte dela é feita de derrotas. Perdemos causas em que acreditávamos que iríamos vencer. Perdemos dinheiro em projetos que não dão certo. Pessoas queridas morrem. Casamentos se desfazem. Pessoas são demitidas. Se essas coisas não são derrotas momentâneas da vida me diga então a definição evangélica para derrota.

Eu cresci em igreja, como já disse, e mesmo em meio a toda essa pregação triunfalista eu via pessoas sendo derrotadas o tempo todo: quantas mulheres idôneas, de vida irrepreensível eu vi serem desprezadas pela família, pelo simples fato de estarem velhas (famílias evangélicas, diga-se de passagem). Quantas pessoas tementes a deus ficaram desempregadas, e passaram necessidades financeiras, a ponto de dependerem da ajuda da assistência social da Igreja. Isso é vencer o tempo todo?

O grande problema dessa mensagem enganosa da vida vitoriosa o tempo todo é que gera pessoas frustradas. Gente que acreditou que não teria derrotas e que sofre o abalo da vida. Gente que espera há anos por uma vitória em uma causa que nunca vai vencer. E a igreja reforça essa ideia com a espera: "é hoje o dia da vitória; se não for hoje, pode ser amanhã". Essa lógica é cruel, pois brinca com a expectativa das pessoas. Faz pessoas simples esperarem por respostas que a vida nunca vai dar. Faz com que pessoas pensem que vão vencer, quando não vão. Essa lógica nos aliena da vida. Não tem base na realidade.

Os pastores que pregam isso deveriam sair um pouco de seus escritórios com ar condicionado e poltronas estofadas e frequentar as periferias, os hospitais públicos. Quando virem a quantidade de evangélicos, de gente de fé que vão encontrar morrendo em fila de espera no SUS vão repensar um pouco de sua teologia nefasta. Ou não.

Uma coisa é fato: o melhor que eu fiz na vida foi abandonar a igreja evangélica e sair dessa lógica.

Os Xiitas do sistema evangélico brasileiro



Eles estão por toda parte: empresas, escolas, grandes eventos, shows musicais, política, internet, TV, e onde mais se possa imaginar. Estão transformando algo, mudando vidas, ajudando pessoas a encontrar a dignidade? Não, estão apenas querendo impor sobre a sociedade um padrão de vida que mais se assemelha ao fundamentalismo islâmico. Sim, falo do sistema evangélico brasileiro que, em épocas de Malafaia & derivados, tem gerado uma legão de intolerantes dispostos a criar brigas intermináveis com qualquer pessoa que pense diferente de sua fé sustentada em raiva e ódio. Tal qual os xiitas islâmicos que incitam pessoas comuns e simples a lutar por uma causa que sequer conhecem direito, os pastores evangélicos brasileiros estão se transformando em espalhadores da intolerância e do ódio, incitando os membros das igrejas a patrulhar nossa sociedade em busca de pessoas que estejam fora dos "padrões morais bíblicos".

A vítima da vez é José Eugênio Soares, o Jô. Sim, o católico fervoroso que há anos faz um trabalho excelente tanto como humorista e escritor quanto como entrevistador - tá, como entrevistador ele não é dos melhores, mas sabe puxar um bom papo como poucas pessoas. Jô Soares tem uma carreira sólida e uma bagagem cultural de dar inveja a muitos. Mas acima disso o Jô tem o talento dos grandes artistas de ser versátil, saber se comunicar com qualquer pessoa. O Jô é o tipo de pessoa que consegue conversar por horas com qualquer pessoa, seja ela estilista ou vendedor de tapiocas em praia. Pra mim o Jô é um dos maiores nomes do Brasil, tanto atual como na história recente do país. Não deixa a desejar em nada a grandes nomes no mundo.

E por que logo o Jô é a vítima da vez do fundamentalismo evangélico? Por causa dessa entrevista com Moraes Moreira e Tom Zé em seu programa. veja:





Sim, por causa desse vídeo o Jô vem sendo vítima da fúria religiosa fundamentalista, aqui no Brasil conhecida sob a versão evangélica.

Quem é o aiatolá da história? Um conhecido pastor chamado René Terra Nova, conhecido pelos altos valores que costuma movimentar em sua igreja. Esse pastor resolveu criar um abaixo-assinado na internet exigindo que o Jô, o Tom Zé e o Moraes Moreira se retratem por "desrespeitar" a Bíblia - qualquer semelhança com a patrulha islâmica ao Alcorão não é mera coincidência.

Várias pessoas já assinaram. Por que? Porque o tal pastor pediu. Um pastor disse a outro, que disse a outro e cada um vem dizendo em suas igrejas. Isso é incitar. O fanatismo religioso evangélico no Brasil vem tomando níveis preocupantes. Que sociedade estamos nos tornando? E a famosa "simpatia" do brasileiro, que convive bem com todos sem discriminar ninguém? E o bom humor do brasileiro que sabe rir de tudo? Graças ao crescimento do fundamentalismo religioso essas e outras boas características do brasileiro estão indo por água abaixo. Estamos nos tornando um povo intolerante. Um povo mal humorado que só ri daquilo que não fere nossa pseudo-moral.

Uma sugestão ao tal pastor: por que ao invés de encher o saco de gente que mal sabe que ele existe e não está nem um pouco preocupado com o que ele pensa, por que não fazer uma campanha alertando sobre a violência contra a mulher no Brasil, que vem fazendo vítimas todos os dias? Ou que tal fazer palestras alertando os adolescentes sobre os riscos do álcool? Ou ainda que tal educar nossas crianças com a consciência ambiental, pra que a próxima geração não seja tão suja como a atual? Isso não interessa o status quo evangélico, não é mesmo? A Igreja evangélica vive hoje na lógica da vantagem: só faz aquilo que pode lhe trazer algum retorno publicitário e, como consequência, financeiro. É muito mais vantajoso arrumar briga com uma personalidade da TV do que fazer uma causa social. O sistema evangélico brasileiro me dá náuseas. 

Sabiamente diz o Ricardo Gondim: "que deus nos livre de um país evangélico".

São Marcelo Rossi?



Numa entrevista à revista Alfa, o próprio padre Marcelo Rossi disse ser tratado como deus no Nordeste. Segundo ele, ""Só falta arrancarem a minha batina, mas sempre digo: meu Deus, para, eu não sou santo". Diz ainda estar feliz de ter concluído as obras de sua catedral, em São Paulo: "Sempre quis ter um santuário. Comprei o terreno há mais de dez anos com o dinheiro das vendas do meu primeiro CD. Acho que o nosso povo precisa de igreja grande. Os evangélicos perceberam isso, mas nós, católicos, caímos na mentalidade dos padres da Teologia da Libertação, que gostam de igrejas pequenas".

Já tem algum tempo que eu me tento entender o padre Marcelo Rossi, e aos poucos estou conseguindo entende-lo: assim como vários líderes evangélicos, ele é mais uma pessoa que tenta lucrar com a fé alheia. Talvez não tão inescrupuloso como certos pastores de TV, mas sabe que religião é algo que dá lucro, tanto a curto como a longo prazo. Nunca cai de moda. Enquanto ele viver será lembrado como um "líder espiritual". E um líder espiritual que vende muito CD e livro.

Marcelo Rossi sabe como poucos capitalizar com a própria imagem. E faz isso às custas da fé alheia.

Aldo Quintão, o padre anglicano



Publicado no site da revista Brasília em Dia


Com quase 50 anos de idade, o reverendo Aldo Quintão, que começou como engraxate, ajudando o pai, em Taguatinga, desde cedo pensava em ser padre para propagar a palavra de Jesus Cristo. Ele recorreu ao padre da paróquia, que o ajudou a realizar o sonho de entrar no seminário, em Itu (SP), onde iniciou sua trajetória. Ele se formou em 1981 e passou para o noviciado como Frei Aldo. Aos 23 anos, em 1984, foi encaminhado para a Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na cidade de São Paulo.

Ele não se adaptou às doutrinas da Igreja Católica e decidiu deixar de ser frade, porque não concordava com as regras impostas pela instituição. Normas que ele considerava hipócritas e, por exemplo, não permitiam que os fiéis sequer usassem a camisa de vênus, o preservativo masculino. Sem ter onde morar, ele procurou abrigo em um cortiço na rua Bela Cintra, na capital paulista. Para sobreviver, ele vendia jornal usado para donos de mercadinhos e feirantes. Justamente em um momento muito difícil, ele conheceu sua atual esposa, a odontóloga Ana Paula, com quem tem um filho. Quando ele não recolhia jornais para vender, atuava como voluntário na Favela do Real, alfabetizando crianças carentes. Logo depois, ele recebeu um convite para fazer palestra sobre trabalho solidário no colégio Pio XII. Em seguida, passou a dar aulas de teologia também.

Por fim, Aldo Quintão chegou à conclusão de que precisava voltar a pregar. Em 1995, ele optou pela Igreja Anglicana e começou a frequentar a Catedral de São Paulo. Em 1998, ordenou-se padre anglicano. Hoje, ele é conhecido no país inteiro. Seus cultos são transmitidos ao vivo pela internet e despertam fiéis em muitas regiões do país, porque fala tudo o que pensa. Assim, sua personalidade serviu para consolidar a fama de ser um religioso polêmico.



O senhor defende o aborto e o homossexualismo. Esses foram os pontos mais críticos que o levaram a deixar a Igreja Católica Romana?

Se você perguntar para qualquer pessoa e, em especial, para qualquer mulher, ninguém é a favor do aborto. O aborto não é maravilhoso, fantástico, gostoso. É igual quando você vai fazer um tratamento dentário. Quem é que gosta de ir ao dentista, de ter um dente obturado ou fazer um canal? Mas é uma situação que, às vezes, é necessária para a saúde. A questão do aborto pertence à área de saúde pública. É absurda a quantidade de mulheres que morrem neste país por causa dos abortos clandestinos... Então, descriminalizar o aborto não é uma questão de fé e de Igreja, mas de saúde pública. Cada Igreja vai ter sua visão e orientar os seus fiéis, mas - em termos de lei - eu sou a favor da descriminalização. Por exemplo, sou a favor da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Estou falando como cidadão, como uma pessoa civil. Agora, se a Igreja quer pregar que não haja a união, tudo bem.


Por que o senhor é favorável?

Porque conheço jovens, homens e mulheres, que foram expulsos de casa pelos pais porque eram homossexuais. Eles vão lutar, trabalhar, construir uma vida, ter seus bens patrimoniais e, de repente, se eles morrerem, a herança deles fica para quem os colocou para fora de casa, para quem não quis ser pai ou mãe deles, para quem tratou aqueles seres humanos como aberrações. Então, que eles tenham o direito de dizer para quem eles vão deixar aquilo que eles amealharam em uma vida de lutas, seja seu companheiro ou sua companheira. É uma questão civil e de amor também. Hoje, a ciência já mostra que ser homossexual não é ser doente. Muitas vezes, a pessoa nasceu assim. Eu duvido que Jesus Cristo diria: “Não quero você, não aceito você”.


Os debates que tomaram conta da mídia a respeito do aborto colaboram ou disseminam o preconceito sobre o assunto?

O preconceito está crescendo, porque a candidata Dilma poderia ser firme no posicionamento dela. Em entrevistas antigas, ela se dizia a favor, argumentando que era uma questão de saúde pública. E agora ela vem apresentando fotos dela fazendo primeira comunhão... Se bobear, daqui a pouco, ela é candidata a papisa. Isso não ajuda em nada. O Serra, que foi ministro da Saúde, poderia ser também mais incisivo. Ele até falou sobre a união civil. Disse que “cada igreja que se posicione de uma forma” e assumiu ser favorável. Acho que essa postura deveria existir também quanto à questão do aborto, mas com clareza.


E quanto à presença de líderes religiosos em programas eleitorais?

Chamar padres e pastores radicais para esses programas não leva a nada, porque a Igreja não pode ditar normas para a sociedade civil, porque nem todos da sociedade são católicos, evangélicos ou protestantes. Devemos ter uma sociedade para todos: ateus, agnósticos, cristãos, muçulmanos, judeus... Deve existir um consenso.


E como deveria ser?

Assim: não um aborto descriminalizado, porque ninguém está falando disso, pois algumas pessoas partem logo para a ignorância. Quem for ler a entrevista, depois, vai dizer: “Nossa, esse padre é louco, como ele fala de aborto, de união civil, isso é contra Deus, isso não está na Bíblia!”. Olha, se a gente for ler a Bíblia literalmente pode se confundir. Por exemplo, quem tem problema de visão não pode ir à igreja, porque o Levítico diz: “Aquele que tem problema de visão não deve se aproximar do altar de Deus”. E quantos padres, pastores e fiéis usam óculos ou lente? Aquilo é um conceito da época, você não pode levar tudo ao pé da letra!


A questão do aborto é uma visão machista?

Muito machista! O mais famoso caso de infidelidade da Bíblia é o da mulher adúltera. O texto bíblico é muito claro quando diz assim: “esta mulher foi presa em flagrante adultério”. Tudo bem, mas ela foi pega com quem? Cadê o homem? Ele não foi levado a julgamento. Ou a mulher iraniana que querem apedrejar [Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad] não estava com alguém? Por que ninguém fala do companheiro? Cadê o homem que estava com ela? Então, sempre sobra para a mulher.


O senhor já foi ajudante de engraxate de seu pai e, hoje, é um dos reverendos que mais têm fiéis no Brasil. O que trouxe essa mudança para sua trajetória?

Primeiro, devo tudo a Deus. Em seguida, devo aos dois catequistas da minha vida com muito orgulho: o sapateiro (meu pai, que completará 80 anos) e a servente (minha mãe, que tem 75). Tudo que tenho devo a eles. Eles são mineiros de perto de Belo Horizonte e vieram para Brasília com quatro filhos, na época da inauguração, para tentar a vida. Eu nasci aqui. Meus pais começaram uma vida de muita dificuldade, de retirantes. Depois de mim, nasceram mais dois irmãos. Apesar de tanta luta e dificuldade, nossa vida em casa sempre se pautou por trabalho, seriedade, honestidade e fé.


O senhor almejava a vida religiosa?

Quando eu tinha uns 10, 11 anos, pensava em ser padre. Achava bacana todo mundo reunido na igreja, rezando, falando das suas lutas, das suas alegrias, incertezas, vitórias, derrotas... Fiquei com aquilo na minha cabeça. Mas como a gente era muito pobre, era difícil poder imaginar que alguém da família iria estudar, mas continuei com esse sonho.


O que o ajudou?

Quando eu ia aos prédios do Plano Piloto, recolhia jornais e revistas que as pessoas jogavam fora. Era muito comum eu pegar O Globo, Jornal do Brasil, as revistas... Então, tive uma vantagem, porque lia as colunas do Nelson Rodrigues, entre outras. Assim, mesmo sendo um menino simples e humilde de uma vila de Taguatinga, comecei a ter acesso à leitura e à cultura. Meu pai também sempre obrigava a gente a ver jornais da TV e a ouvir rádio.


Quando o senhor decidiu entrar para o seminário?

Aos 16 anos, eu fazia “bicos” nas feiras livres de Taguatinga. Assim, juntei um dinheiro, comprei meu enxoval e no mesmo ano pedi minha entrada no seminário dos padres carmelitas. Em 1979, saí da casa dos meus pais e fui atrás do meu sonho.


E onde foi feito o seminário?

Entrei no seminário Nossa Senhora do Carmo de Itu (SP). Fui fazer o colegial, que a gente chamava de seminário menor, e ao final, no ano de 1981, fui para o Nordeste, onde fiquei dois anos estudando, e mais dois em Curitiba. Depois, fui para São Paulo. Eu já era então um frade e, assim, realizei meu sonho de poder ser um religioso. A seguir, comecei a dar aulas.


E depois?

Um novo horizonte se abriu para mim: tive uma crise pessoal e particular, que não credito a ninguém, nem à Igreja Católica Apostólica Romana, nem aos bispos, nem ao papa, porque foi uma coisa minha. Senti, aos 24 anos, que algumas coisas que eu pregava e dizia não eram condizentes com a realidade da sociedade e nem com aquilo que eu pensava.


Por exemplo.

Comecei a lidar com muitas pessoas e vi seu sofrimento. Vi que elas, muitas vezes, vinham de outras cidades, não eram casadas e não tinham como fazer o casamento, só viviam juntas, não conseguiam contingenciar o número de filhos, sustentar a família numerosa... De repente, eu representava uma instituição que não dava espaço para essas pessoas, que não podiam participar da Igreja. Já esta, por sua vez, não pode limitar o número de filhos, porque a ciência não é bem vista por ela, nem o estudo das células-tronco... Isso tudo não estava batendo com o que pensava. Então, deixei a Igreja e fiquei com minha vida de professor, ministrando aula nos colégios Pio XII e São Luís dos Jesuítas, em SP. Tive sucesso social e econômico, mas voltou a me dar um vazio na vida. Podia viajar nos fins de semana para descansar, mas não era aquilo o que eu queria.


Como o senhor se sentia?

Muito só. Então, comecei a namorar a Ana Paula, minha primeira namorada. Eu também fui o primeiro namorado dela. Depois de quatro anos, em 1988, nós nos casamos. Em 1989, tivemos nosso primeiro e único filho, Leonardo. Continuei trabalhando na educação. Eu estava muito bem na minha vida familiar, mas continuava com aquele vazio.


O senhor pensou em voltar à Igreja?

Não poderia, porque ela não admite padres casados. Aí, eu conheci a Igreja Anglicana. Aliás, eu fiz um percurso por várias igrejas (protestantes, evangélicas...), estudando e avaliando para tomar uma decisão para não me sentir descontente de novo. Não era um problema das igrejas e nem da norma, porque o problema era meu, em qual igreja eu me situaria.


Onde o senhor conheceu a Igreja Anglicana?

Em São Paulo. É uma Igreja eminentemente inglesa. Foi a primeira Igreja não romana no Brasil. E essa paróquia onde estou é inglesa. Nunca houve nela um padre brasileiro. Aliás, os que eram brasileiros eram filhos de ingleses. Fui até lá mesmo sem falar uma palavra em inglês, que, por sinal, não falo até hoje. Conheci a catedral e gostei do jeito inglês de ser. Não havia mais do que dez brasileiros na igreja. Conversei com o bispo na época, fui estudando um pouco mais da teologia anglicana e pedi para fazer parte do clero. Fui ordenado há doze anos, sendo o terceiro na igreja. Uma ou duas vezes por mês, eu fazia a celebração.


E depois?

Com o passar do tempo e a aposentadoria do bispo, comecei a desenvolver um trabalho com os brasileiros, aquele no qual eu acreditava e com o qual eu tinha uma história de vida: falar de um Deus maravilhoso, carinhoso, que ama e aceita as pessoas do jeito que elas são. É evidente que Deus quer que a gente melhore, é igual a um pai de família. Por exemplo, alguém quer ser pai ou mãe, deliberadamente, de um homossexual? Não, não quer. Mas se o filho for gay, o que eu faço? Jogo fora, descarto, expulso da minha casa ou eu amo? Eu vou amá-lo. Você quer que seu filho se divorcie? Não, não quer. Mas se divorciou. E aí? O que você faz? Diz: “na minha casa você não entra mais”? Ou diz: “quero meu filho comigo, porque é nessas horas que eu quero oferecer o meu colo”?


Para o senhor, o que diferenciou a Igreja Anglicana das demais?

Descobri esse jeito de ser de uma igreja que acolhe, que ama e que não é punitiva. Encontrei um Deus que não persegue, que não fica vigiando, mas amando, cuidando e zelando, e comecei a falar disso para as pessoas, sem grandes teologias e filosofias, porque o mundo não precisa disso. Podemos ter acesso a tudo, mas isso não garante nossa felicidade. Nós precisamos é de amor, carinho, um local onde possamos ter paz, harmonia, acolhimento, como minha casa, onde eu vivia quando era criança. Nós éramos nove e faltava tudo, mas a gente não ligava, porque o importante não faltava: tínhamos amor e carinho. Dividíamos o pão, o arroz e o feijão da mesma forma que dividíamos o amor, o perdão e a reconciliação. O bem-estar está dentro da gente quando estamos com este Deus maravilhoso.


A discriminação acarreta o quê?

Faz, por exemplo, o homossexual ter uma vida promíscua, e isso não está correto. Não sou a favor da promiscuidade. Sou favorável que a pessoa tenha uma vida feliz com seu parceiro. Se você não permitir que uma pessoa que foi estuprada ou que uma moça que tem um feto com anomalia tenham direito a uma saúde decente e a um acompanhamento médico às claras, o que elas vão fazer? Vão para a clandestinidade, para a morte. Aliás, essa é uma posição machista, porque a maioria do Congresso Nacional é composta por homens.


E quanto à abordagem de outras doutrinas? Como o senhor administrou essa relação?

Isso para mim é muito simples. Um jogador de futebol, quando se destaca, tem o passe dele comprado por outros times, e isso é muito normal, porque ele vai, então, oferecer seu talento para aquele novo clube. A mesma coisa ocorre no meu caso.


Recentemente, ocorreram denúncias sobre o envolvimento de líderes religiosos em esquemas de corrupção de fiéis. O que o senhor pensa a respeito?

Graças a Deus, recebi uma herança na Igreja Anglicana e que eu acho fantástica: a auditoria da PricewaterhouseCoopers [PwC], maior empresa desse segmento no mundo. Assim, somos a única igreja auditada no Brasil. E eu digo que deveria haver uma lei no país para que todas as igrejas pudessem prestar contas de seus ganhos, em igualdade de condições com todos aqueles no Brasil que geram riquezas. Tudo isso acompanhado por técnicos do Banco Central, da Receita Federal...


Seria necessário haver uma lei nesse sentido?

Aliás, não deveria ser necessária uma lei, porque as igrejas deveriam fazer isso por ética, por moral. Não estou dizendo que todas as igrejas são desonestas ou vivem para ganhar dinheiro, mas não podemos negar que virou moda o slogan “Pequenas Igrejas, Grandes Negócios”. Assim como igreja proprietária de várias emissoras de TV e rádio, construindo palacetes imensos e, às vezes, com dinheiro não contabilizado.


Como a igreja, que não paga impostos, contabiliza o dinheiro de doação dos fiéis?

Isso é uma coisa da igreja, uma coisa pessoal e particular. Não existem padres e pastores que montam igreja para ganhar dinheiro. Existem, sim, pessoas que se dizem padres e pastores e que abrem igrejas, como se fossem empresas, para ganhar dinheiro. Depois, essas mesmas pessoas corrompem os fiéis e se vendem para os políticos.


E quanto às igrejas que fazem acordos políticos?

Em todas as eleições, as mesmas igrejas fazem acordos políticos. As igrejas sérias não fazem isso. E agora eu vou parafrasear alguém: “nunca na história deste país”, em tempos de eleição, você viu uma Igreja Católica Apostólica Romana, Anglicana, Luterana, Metodista, Batista e Presbiteriana, que são as mais antigas e mais sérias, fazendo acordos e levando políticos para pregar nos seus templos. Isso não ocorre. E acordos políticos do tipo: “se eu for eleito, vou dar um terreno para você, além de tijolo, telhado e até pagamento”. Existem padres e pastores que são cabos eleitorais!


E há, ainda, aqueles que se candidatam a cargos políticos.

Como é que um religioso consegue passar incólume às negociatas políticas? Como? É difícil!


Para o senhor, o poder corrompe?

Claro! É impossível que não seja assim. Disse Jesus Cristo: “Não é possível servir a dois senhores”. Ou você é político ou você é religioso. Eu sou a favor que as igrejas incentivem pessoas sérias, honestas e corretas a disputar cargos políticos, até para melhorar a sociedade. Bons advogados, médicos, economistas, professores, jornalistas...


Esse é o seu jeito de pregar?

É meu jeito de pregar, de trabalhar, de falar na igreja, minha forma de ser: claro e transparente. Quando eu fundei o Instituto Anglicano, para ser o braço social da igreja, construí quatro creches com trabalho e esforço da comunidade e da igreja, todas auditadas pela PwC. As creches atendem a 620 crianças, com 3.100 refeições diárias, em convênio com a Prefeitura Municipal de São Paulo. Faço isso porque faz parte de minha história. Teria sido muito importante se minha mãe tivesse tido a oportunidade de nos colocar, eu e meus irmãos, em uma creche, para que a gente tivesse quatro, cinco refeições por dia, além de educação, cultura e convivência melhor com outras crianças. Não tivemos essa oportunidade, mas fui abençoado para que pudesse fazer isso.


Como funciona essa atividade sua?

Faço um trabalho com todos os pais, e aí não entra religião. Nas creches não há religião. Isso vale para todas as crianças. Agora, os pais são educados, todas as crianças têm carteira de vacinação, as mães têm de fazer um acompanhamento de saúde, de acordo com a lei, conforme estabelece o Conselho de Medicina.


Como é feito esse acompanhamento?

Com o controle de natalidade, porque não dá para você morar em um barraco e lotar sua casa de filhos! Mas também não posso pedir para você acreditar no método da tabelinha se você não sabe nem fazer contas, nem ler e escrever. Mas posso pedir que você vá ao médico, para que ele diga que você pode ter uma vida sexual ativa e saudável, controlando a sua prole. Pronto, isso a gente pode. Essa deve ser a postura da igreja, mas não a de se posicionar na política partidária.


O senhor se posiciona politicamente?

Sim, mas não na igreja, não no púlpito. Mas se você me perguntar qual é minha postura política, não escondo. Agora, na igreja, não. Lá eu só anuncio Jesus Cristo. Só falo de amor, caridade e de Deus. Por isso saí da Igreja Católica Apostólica Romana e vim para a Igreja Anglicana. Por isso resisti ao assédio de outras denominações religiosas, porque eu não vou vender meu passe para pregar algo em que eu não acredito ou para fazer “rebanhão”. Estou aqui para fazer um trabalho no qual eu acredito desde criança.


A Bíblia é machista?

A Bíblia é um livro extremamente machista. Você observa que, primeiro, foi escrita por homens. O maior divulgador da palavra de Jesus Cristo foi Paulo, o apóstolo, que era extremamente machista. Ele mandava a mulher ir para a igreja, botar um véu e calar a boca, ficar quieta. Ele escreveu que o homem é superior à mulher, que ela deveria ser submissa. Agora, isso é um contexto da época, valia para aquela época. Quando as igrejas usam esse texto de Paulo, por que não usam a palavra dele quando ele diz: “Escravos, sejam submissos aos seus patrões”? Afirmam: “Não, mas esse é um contexto da época”... Observe que só é contexto da época quando interessa! Quando não interessa, já não é mais, já leva como uma doutrina. E, geralmente, só se leva como doutrina aquilo que permite que eu exerça poder sobre as pessoas. O que não convém não se ensina mais. Talvez seja esta a razão da resposta à primeira pergunta que você me fez, porque não acredito que sou o dono da verdade, só não sou hipócrita!


Mas o senhor é considerado polêmico. Como se sente assim?

Não sou polêmico, não carrego bandeira, apenas defendo a humanidade, as pessoas. Não procuro usar do medo e da coerção para que a pessoa vá à igreja. Eu vou por amor a Deus, por temor, quero ter paz, viver bem e desejo que meu próximo também tenha paz. Seja ele rico, pobre, preto, branco, homem, mulher ou gay, todos têm o direito de estar com Deus. Cada um tem sua história de vida. Não adianta querer fazer da humanidade uma coisa homogênea, porque ela não é homogênea: é heterogênea, é plural! Existem pessoas que gostam de ir à igreja e ficar meia hora, 40 minutos, em absoluto silêncio; outras já gostam de guitarra; outras ainda preferem música clássica... Assim é a vida! Eu vivo na sociedade, e ela precisa de normas, de leis e regras, existem as convenções, mas elas não existem para amarrar as pessoas

Religião liberta?



@wesleytalaveira Outro dia questionei no Twitter a eficácia de clínicas de recuperação de dependentes químicos mantidas por igrejas evangélicas que usam a religião como forma de 'libertar' os viciados. Essas clínicas costumam impor aos internos rotinas de práticas religiosas que eles provavelmente não teriam se tivessem poder de escolha. Cultos, orações antes dos alimentos e leitura da Bíblia, além de outras práticas. O resultado é que a maioria dessas pessoas que saem dessas clínicas se tornam evangélicos fervorosos, que pregam, cantam e "testemunham" sobre sua vida passada de drogas e a nova vida religiosa.

Me lembro de ter lido uma vez algo sobre os "viciados em religião", pessoas que precisam da prática religiosa para sobreviver. Sim, assim como existem pessoas viciadas em álcool, chocolate e café, há os viciados em religião, e eu conheço gente assim. Um dia sem ir à igreja é um dia incompleto, vazio. Onde estão, estão falando na religião, seja em almoço de família ou no trabalho. Esse tipo de gente geralmente costuma ser inconveniente, pois acha que qualquer ambiente é local para a "pregação do evangelho".

Pois bem, considerando que é possível que uma pessoa se vicie em religião, eu perguntei no Twitter: será que essas clínicas que usam a religião como tratamento estão realmente libertando? Esses pacientes estão sendo tratados de um vício ou estão apenas trocando por um outro? Será que eles não estão deixando o vício nas drogas para mergulhar no vicio em religião? Não seria o caso de eles estarem usando um vício considerado "bom" para a sociedade para esconder outro, considerado "ruim"?

Penso que qualquer coisa que tira do indivíduo a capacidade de pensar sozinho é um vício a ser combatido, seja o crack, seja a religião manipuladora. Já não dizia Nietzsche que a religião é o "ópio do povo"?

Qualquer iniciativa que tenha como objetivo libertar das drogas é algo bom e que deve ser apoiado. Mas o que vai ser feito com essa pessoa depois do tratamento é um outro assunto. As vezes esse 'depois' pode ser mais complicado que o próprio tratamento em si. Tratar um dependente químico é algo complicado demais para simplificar tudo com a religião. Não basta somente crer que 'deus liberta'. Há todo um caminho a ser percorrido pela pessoa, e que apenas ela pode fazer. Mais ninguém. Nem Deus.

O Sílvio disse não!


@wesleytalaveira Bem que os pseudo-pastores tentaram. Malafaia, Valdemiro e outros ofereceram até o rim pra comprar a madrugada do SBT e veicular lá suas asneiras gospel. Mas o Sìlvio disse não.

A maior oferta veio do líder da Igreja Mundial, o Valdemiro Santiago. Tanto tentou negociar com o pessoal do SBT sem sucesso que passou a tentar diretamente com o dono dos porcos. Marcou almoços, jantares e etc, sempre sem sucesso. Por fim Sílvio Santos bateu o martelo e disse que não vende a madrugada do SBT.

A crentada chiou na internet. Amaldiçoaram o dono do Baú, disseram que ele vai morrer no fogo do inferno e outras coisas mais. E nós, que não dependemos das palavras desse tipo de gente para ser pessoas boas só temos a comemorar por saber que ainda existem pessoas que dizem não para o dinheiro sujo desses covis  de bandidos que insistem em se chamar igrejas. Ainda tem algumas poucas pessoas que rejeitam o dinheiro conquistado de forma suja, através da ludibriação da boa fé de pessoas ingênuas, que acham que realmente estão contribuindo com a 'obra de Deus'. Ainda existem empresas que preferem trabalhar pelo lucro, ao invés de se aliar a fontes inesgotáveis de dinheiro.

Valeu, Sílvio!

O deus bizarro que se pode ver


@wesleytalaveira Uma das coisas criticadas nas pessoas religiosas é exatmente o fato de crerem em algo que nao podem ver. "Se não vejo, como sei se existe?", argumentam alguns. E é uma crítica válida, pois crer no que não se vê pode dar margem a todo tipo de charlatanismo possível de se imaginar. Mas e quando o que se vê é mais bizarro do que o que não se vê?

Assisti essa semana uma matéria da TV sobre a Igreja Apostólica. A igreja crê em Deus e em Jesus - que não se pode ver - mas a crença maior recai sobre uma pessoa física, viva: o líder "Primaz Irmão Aldo Bertoni", que consideram o "intercessor" das pessoas. Aldo é adorado como deus na Igreja Apostólica. Cantam hinos, oram a ele e pedem sua bênção e seus milagres. Como bizarrice pouca é bobagem, creem ainda na Vó Rosa, uma senhora que eles creem ser a encarnação do Consolador, o Espírito Santo que Jesus prometeu quando viveu aqui. Como a tal Vó Rosa morreu - ou desencarnou para ter mais mobilidade, como eles dizem - alguém precisava assumir o posto deixado por ela, e o tal irmao Aldo foi o escolhido.

O que mais me impressiona é a ingenuidade de pessoas que conseguem acreditar nisso tudo como sendo verdade! Pessoas dedicam a vida a isso e entregam o coração à uma coisa que qualquer olhar mais atencioso identifica como sendo pura balela. É um caso curioso de uma crença numa coisa material que consegue ser mais bizarra do que o mundo espiritual. Mais bizarro do que crer que Madre Tereza ainda está viva em espírito e ouvindo o que as pessoas falam é crer que um senhor de quase 90 anos tem poder para curar alguém.

Quando Jesus disse que "muitos virão se dizendo ser eu ou meu enviado" ele não estava profetizando. Era uma constatação óbvia, já que naquela época já haviam muitas pessoas que se diziam o "Messias prometido" dos judeus. Se Jesus tinha conseguido ganhar alguma fama na época e sabia que iria morrer, o que não iam faltar eram pessoas se dizendo a "encarnação dele", como um tal Inri Cristo... Os charlatões e exploradores da fé alheia sempre existiram e continuarão a existir sempre, por um motivo simples: assim como o crime organizado, o que alimenta o charlatanismo é o fato de existirem pessoas que recebem essa mensagem. Tem gente que acredita que de fato Inri Cristo é a encarnação de Jesus Cristo e que Vó Rosa é o Espírito Santo.

Explorar a boa fé das pessoas, além de crime, deveria ser algo para pesar na consciência dessas pessoas, mas se eles chegam a esse ponto é porque já perderam a consciência há muito tempo atrás.

Deus nos livre de um "Brasil evangélico"


Postado no blog do Ricardo Gondim

Começo esse texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.


O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Ricardo Gondim é teólogo e líder da Igreja Betesda, em São Paulo.
@gondimricardo

Uma "raça de víboras" chamada Igreja Evangélica

Veja o vídeo abaixo até o fim (se você conseguir, claro):


Se você não entendeu nada do que se passou no vídeo, tento explicar: num culto de uma igreja evangélica de fé pentecostal, um pastor que diz estar trazendo o "poder de deus" manda que uma mãe coloque as mãos de uma criança recém nascida na cabeça das pessoas, e conforme a mão da menininha é colocada, essas pessoas desmaiam, entrando em êxtase. Depois disso acontecem mais coisas "sobrenaturais" na igreja: uma mulher é cercada por outras mulheres e começa a fazer danças estranhas, e uma moça supostamente vítima de "obras de macumbaria" começa a vomitar.

Eu, que nasci e cresci no meio de evangélicos, não cheguei a pegar essa "evolução" - ou seria "involução"? - dos cultos religiosos, pois saí antes que isso se espalhasse como espalhou. Entre as igrejas pentecostais, virou moda levar as pessoas a êxtase, provocando desmaios, danças  e movimentos corporais involuntários e manifestações de supostos demônios. Quando vejo esse tipo de coisa, me vem a cabeça algumas perguntas: que tipo de religião é essa, onde crianças recém nascidas são usadas como parte de um espetáculo religioso? No que se transformou o protestantismo iniciado na Reforma? O que diria Martinho Lutero, se entrasse numa igreja dessas?

O pior é saber que há pessoas - e muitas - que defendem esse tipo de prática com unhas e dentes. A Igreja Evangélica hoje é uma fábrica de alienados. É especialidade dos pastores evangélicos moldar pessoas com os "valores religiosos", que nada mais são do que proibir as perguntas. Eu mesmo cansei de ouvir no templos religiosos que os fieis não podiam fazer perguntas, pois quem duvida de deus "dá lugar para o diabo trabalhar". Isso produz pessoas alienadas, que usam o culto e a fé como amuleto para se proteger, e como anestésico para levar a vida. Ou seja, fica mais do que provado que a religião é sim o ópio do povo.

O curioso é que o próprio Jesus Cristo condenou fortemente os que usavam a religião como meio de manipulação. Jesus chamou os religiosos do seu tempo de "raça de víboras", que "roubam as casas das viúvas, e depois fazem longas orações como justificativa". Jesus chegou a comparar essas pessoas com "sepulcros caiados": por fora muito bem pintados e bonitos, mas com restos mortais apodrecidos por dentro. Fica provado que a Igreja evangélica lê na Bíblia apenas aquilo que lhe convém. Qualquer coisa que vá de encontro ao que pregam ou é ignorado ou distorcido.

O movimento evangélico no Brasil é uma farsa, um movimento formado por criminosos que, além de roubar o dinheiro roubam a paz e ó intelecto das pessoas. Sim, há gente honesta no meio evangélico, mas esses são as minorias das minorias, que se tivessem a consciência de onde estão, já teriam saído.

O movimento evangélico não merece nada mais do que o desprezo.

O "Drive Thru de Oração" da Igreja Universal


@wesleytalaveira - Sim, é isso mesmo que você leu. Já não bastassem todas a excentricidades que fazem da Igreja Universal a maior vergonha que o meio religioso já ouviu falar, agora inventaram a nova: o drive-thru de oração, instalado na Catedral da Vila Mariana, em São Paulo. Segundo Osvaldo Volpini, líder da igreja (a quem me recuso chamar de Pastor), a escolha pelo "método evangelístico" se deu pela localização do templo, que fica em uma avenida movimentada. “Nós percebemos que durante o tráfego intenso, os carros ficavam parados na frente da igreja, então, colocamos faixas sinalizando o “Drive-Thru” e os motoristas começaram a entrar para receber orações”, explica.

Sim, se você pensava que já viu de tudo, tem mais um motivo para se indignar com os pseudo-evangélicos, que transformam a religião em "fast-food", com direito a drive-thru e tudo mais!

O que Martinho Lutero diria disso?

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