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Blog Novas Ideias

Quem disse que só tem um jeito?

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Quem disse que só tem um jeito?

#Análise: Se Aécio quer mudança, comece pelo marketeiro



Apesar de não exercer a profissão, sou formado em Publicidade e Propaganda. E dentro da Publicidade uma das áreas que mais me chamam a atenção é o marketing (não, publicidade e marketing não são a mesma coisa). E dentro do marketing em si, o marketing político é um dos que mais me chamam a atenção. Sim, sou dos que guardam jingles e materiais de campanha de candidatos, para comparar com outras eleições. Gosto de analisar as estratégias usadas pelos candidatos para se fazerem conhecidos, ou para reforçarem sua imagem. 

A candidatura petista, seja quem for o candidato, tem como foco criar um certo terror e lançar o medo sobre o eleitor. Principalmente o medo de perder benefícios sociais. Assim foi em 2006 quando o Lulla disputou contra Geraldo Alckmin, assim foi em 2010 quando a Dillma disputou contra Jose Serra, e assim está sendo agora contra Marina Silva. Frequentemente se vê - e verá - coisas como "fulano vai acabar com o Bolsa-Família", "fulano é contra o trabalhador", e outras mentiras típicas de um partido que morre de medo de perder o poder. 

O PSDB não vai bem das pernas no quesito marketing eleitoral desde que perdeu o poder federal em 2002. Nunca mais se viu uma campanha bem sucedida do PSDB, independente de sair vitoriosa ou não. O PSDB parece ter uma dificuldade colossal de se comunicar com o brasileiro e anunciar o que fez. E o pior: o PSDB não aprende com os próprios erros. Nem com os dos outros. E além de não aprender com os próprios erros, agora parece que resolveram testar novos erros, para ver o quão fundo conseguem chegar numa disputa eleitoral. 

É o que tem feito o atual candidato à presidência, Aécio Neves, que alardeia aos quatro cantos ser a "mudança segura" que o Brasil precisa. Até aí tudo bem, porque essa é a missão dele: se vender como melhor que os outros. Mas o desespero bateu à porta quando viu sua candidatura naufragar na "onda Marina" que tomou o Brasil nos últimos meses. Com o desespero tomando conta de sua equipe, o foco da campanha parece ter se perdido completamente. O que antes era uma campanha que propunha mudança, renovação e propostas sólidas, a candidatura de Aécio virou um canhão apontado ao PSB, disparando ataques infundados o tempo inteiro contra Marina Silva, que nunca teve qualquer ligação com o PSDB nem com Aécio. 

Uma dica importantíssima de marketing para quem deseja alcançar postos mais elevados em rankings, seja qual for, é: vá pra cima de quem está ganhando, nunca de quem é a segunda opção. Se você quer criar uma marca de refrigerantes poderosa, mire seu marketing na Coca-Cola. Uma nova emissora de TV não teria qualquer sucesso mirando seu alvo no SBT (foi o que fez a Record chegar à vice-liderança: mirou diretamente a Globo). Quando disputou a prefeitura de SP em 2008, Gilberto Kassab, então no DEM, começou num mísero quarto lugar. Sua estratégia foi mirar na candidata que liderava as pesquisas com folga, a ex-prefeita Marta Suplicy, e o resultado foi uma vitória com larga vantagem. Focar em quem não é líder não te fará liderar. 

E é exatamente o erro que a campanha de Aécio Neves vem fazendo. Sua concorrente direta sempre foi a candidata do medo Dillma do PT, em quem ele mirou seu discurso e seus "ataques". Ao ser atravessado pela onda Marina, Aécio mudou de foco e passou a a atacar a ex-senadora. Sua estratégia deu certo: conseguiu tirar votos da sucessora de Eduardo Campos. Mas os votos que ela perdeu não vieram para Aécio, e sim para Dilma. Sim, quem deixa de escolher a segunda opção vai para a primeira, sempre a mais segura. Ninguém abandona o segundo para aderir o terceiro. É uma regla simples de marketing, que qualquer artigo sobre marketing de posicionamento poderia dizer. 

Mudar o foco para atingir a Marina é, no mínimo, um erro grosseiro que a campanha de Aécio Neves vem cometendo. Além de não se beneficiar em nada, o PSDB vem contribuindo para o quarto mandato petista. Além de sequer chegar ao segundo turno, Aécio é, sem perceber, um cabo eleitoral de peso da Dilma. 

Aécio, meu amigo:se você realmente defende as mudanças que diz defender, aconselharia a começar essas mudanças pelo marketeiro de sua campanha. 

#Opinião Por que só na Copa?


Contrariando todas as expectativas, a Copa do Mundo no Brasil foi um sucesso - apesar de não termos o prometido trem-bala da Dilma, mas que não fez a menor falta. Estádios completamente prontos a tempo, por mais que falaram que não ficariam. Aeroportos funcionaram perfeitamente, transporte público à disposição, hospedagens dentro do esperado, serviços de turismo funcionando perfeitamente, estádios impecáveis, organização sem igual, o que fez com que vários frequentadores dissessem: foi uma das melhores Copas do mundo. O técnico holandês Van Gaal foi direto: a organização foi impecável, em todos os detalhes. A infraestrutura em torno dos estádios não ficou pronta a tempo, é verdade, mas nem deu pra perceber. O básico para a realização da Copa funcionou. Até mesmo o presidente da Fifa Joseph Blatter disse que essa foi a melhor copa em que ele já esteve. Tudo que dependeu do serviço público e do Governo funcionou perfeitamente, e fizemos bonito para o mundo. 

Nem parece que estamos falando do Brasil, né?

Por aqui estamos acostumados ao serviço público "mal e porcamente" feito. Serviços públicos de ducentésima categoria, servidores públicos mal humorados que parecem trabalhar amarrados a bolas de ferro apesar dos bons salários e a estabilidade que têm, hospitais que mais parecem matadouros, transporte público que parece carregamento de gado, escolas que parecem currais, burocracia burra para todo lado que se olha, políticos analfabetos com a responsabilidade de conduzir os rumos do país. No Brasil, tudo que é feito pelo poder público já vem com o carimbo de "mal feito". Todo brasileiro sabe disso. Para ser um pouco sensacionalista, poderia dizer que o serviço público no Brasil é um "lixo", salvo raríssimas exceções. Por isso compramos carro mesmo pagando pelo transporte público. Por isso contratamos convênios médicos mesmo pagando pela saúde pública. Por isso matriculamos nossos filhos em escolas particulares mesmo pagando pela manutenção das escolas públicas. No Brasil nos acostumamos a pagar duas vezes para ter um mínimo de conforto: pagamos a nossa obrigação para a manutenção do que é público, mas pagamos também "por fora", pois o público, que nós pagamos, não funciona como deveria funcionar, apesar de pagarmos por isso. What? 

Por que a competência e a organização que vimos na Copa do Mundo não funciona para o resto das coisas? 

A Copa do Mundo é a prova de que o serviço público podem sim ser de primeira qualidade. Quando há vontade política, gente competente no comando e parte da iniciativa privada trabalhando junto as coisas podem ser sim bem feitas. Nos países que consideramos "primeiro mundo", e que invejamos sempre, funciona assim. E por isso invejamos os países de primeiro mundo. Quem não tem vontade de ter um transporte público igual ao da Alemanha, que apesar de ser o país das principais montadoras de veículos, tem metrô à vontade e linhas de ônibus inteligentes que convergem e servem ao país inteiro? Quem não tem vontade de ter a educação pública da Suíça, que lidera qualquer ranking em níveis escolares? Por que isso não acontece sempre no Brasil? Falta de dinheiro? E o dinheiro investido na Copa veio de onde? Não veio dos mesmos bolsos que pagam por hospitais sem maca, ônibus destruídos e servidores públicos mal humorados? Por que não dar um "padrão Fifa" ao que temos aqui no nosso dia a dia? Por que não dar ao serviço público brasileiro o mesmo tratamento recebido pela Copa do Mundo? 

Dá sim, pra fazer bem feito. Há dinheiro e gente competente. Basta querer!

Em cima do muro com Valesca



Eu gosto de pensar que o Brasil está numa fase de transição. Historicamente somos conservadores. Fomos colonizados por portugueses católicos e nossos maiores herois nacionais são padres e santos (São José de Anchieta, Padre Antônio Vieira, São Paulo, por exemplo). Somos um país onde a religião e todo o conservadorismo que sempre a envolveu tem muita força como formadora de opinião de massas, mas os tempos modernos nos tem colocado em contato com o extremo disso tudo. Se por um lado sempre tivemos a influência do conservadorismo, por outro lado bombam todos os dias pessoas e situações que nos questionam, nos tiram da nossa zona de conforto e nos fazem pensar sobre tudo aquilo em que acreditamos. Nossa atual situação é a prova de que nem sempre os opostos se atraem. Pelo contrário. As vezes os opostos travam guerras intensas. 

Penso que estamos numa ponte bastante frágil que liga o conservadorismo extremo à libertinagem total, e ainda não encontramos um ponto seguro onde nos apoiar. Sim, ainda balançamos bastante, sem saber se voltamos atrás e nos seguramos novamente no lado conservador ou se corremos para frente e chegamos na falta total de limites. E essa insegurança nos incomoda, pois não gostamos de riscos. Queremos um lugar certo para estar. Não gostamos da dúvida. Queremos certezas, mesmo que para isso não precisemos questionar muito. E o momento atual é de dúvida: continuamos conservadores? Aceitamos tudo como normal e dane-se o universo? Se preocupar com o futuro ou ativar o foda-se e ser feliz?

Só isso explica tanta polêmica, tanta opinião contrária, tanto debate inútil que não leva a lugar nenhum. Todos os dias vemos extremos se conflitando, opostos se atracando. As opiniões conflitantes resolveram entrar no ringue e disputar a tapa quem leva o cinturão que dará ao vencedor o título de "lado certo". Gays e héteros, esquerdistas e direitistas, moralistas e libertários, homens e mulheres, todo dia vemos uma polêmica diferente. E isso é bom. Não porque um dos dois lados tem que vencer e lançar o outro no calabouço da ideia morta, mas para encontrarmos um meio termo entre o "nem tanto" e o "nem tão pouco". Sim, estar "em cima do muro" muitas vezes é bom. Nos dá uma boa visão de ambos os lados. 

Sim, tudo isso me veio à mente a partir da Valesca Popozuda. Não só por causa dela, mas pelo que ela representa atualmente. A tal prova de filosofia aplicada no DF que a tratou como "pensadora" - uma clara e divertida ironia - trouxe novamente ao debate - leia-se "ringue" - a questão do politicamente correto e da moral e bons costumes. Bater de frente é o que? Tiro, porrada e bomba? Eis uma questão que nem Sófocles poderia responder. Mas a Valesca respondeu. 

A Valesca por si só não diz muita coisa, até porque ela não tem quase nenhum dos atributos que classificaria alguém como "artista": canta mal, interpreta mal, tem uma voz horrível e nem é tão bonita assim. Até a fabricada Anitta ganha dela nesses quesitos. Mas, muito diferente da Anitta, ela representa um outro lado da nossa sociedade, que sempre existiu mas esteve quieto até agora: o da liberdade total, o da "vadia", a "periguete", que está se lixando pra moral e bons costumes, e só quer mesmo é viver conforme suas próprias regras. 

Sim, é um outro extremo, mas ele existe, e veio novamente ao debate depois do "beijinho no ombro" que vem marcando presença em todo lado. Mandar beijinho no ombro é moda, principalmente se o alvo forem as invejosas de plantão. Os conservadores enlouquecem com essas coisas. Os "moderninhos" vibram. Os que não são nem um, nem outro? Bom, esses ainda estão tentando entender o que está acontecendo no Brasil. Eu me enquadro entre esses, que não são tão chatos, mas não conseguem ir tão além assim. 

Onde isso tudo vai dar? Não sei. Mas quero acompanhar. Esse conflito só tem coisas boas a oferecer. Sem saber, Valesca Popozuda está contribuindo para o nascimento de uma nova sociedade, uma legião de pessoas que assumidamente querem estar em cima do muro, sem se fecharem em qualquer rótulo, abertas a experiências novas. Que mal há em ser apreciador de Chico Buarque e ouvir algum funk carioca? Ou vai dizer que você nunca se contagiou com aquela batida que parece virar chiclete? Gosto dessas mistura. Gente completamente diferente que se junta de vez em quando pra fazer alguma coisa. Clássico e popular. Sofisticado e simples. É legal!

Vai, quebra um pouquinho esse preconceito e aprecie o muro. E pra quem gosta de viver no chão, fechado em apenas um lado da história e gosta de reclamar  de tudo, "late mais alto, que daqui eu não escuto". 

Profissão Prostituta


Bianca Vaz, acompanhante gaúcha

Acabamos de sair do Carnaval, época do ano em que "tudo é liberado", onde é permitido beijar na boca à vontade, transar como se não houvesse amanhã sem sequer perguntar o nome, perder a conta de quantas mulheres se "pegou" numa noitada, sempre com o aviso: use camisinha. Desde que o preservativo esteja na carteira, a permissividade é total, e até cultuada por alguns "comentaristas". 

E não, não sou contra nada disso. A vida é de cada um e você faz o que quiser dela.  

Mas algumas coisas são curiosas: no carnaval, homens se vangloriam de terem ficado com várias mulheres, de terem transado loucamente e levado para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. A quarta-feira de cinzas é o dia oficial de contar aos amigos as "aventuras" do feriado: com quantas saiu, qual delas foi para a cama, como foi o sexo, se ficou ou não com o telefone de alguma, e por aí vai. Por que? Porque o sexo nesse caso é apenas um momento de diversão, serve apenas para relaxar, para se divertir, sem qualquer compromisso de relacionamento. Sexo e amor são coisas completamente diferentes, suprem necessidades diferentes no homem, e essa diferença fica muito explícita no carnaval - aliás, muitas coisas ficam explícitas no carnaval... 

Mas se essa mesma mulher, essa que aceitou transar sem qualquer compromisso com esse mesmo cara, que foi para a cama com um cara que sequer perguntou seu nome, e que usou seu próprio corpo para dar prazer a um desconhecido, resolvesse cobrar por isso, viraria uma "vagabunda", "mulher da vida", "puta", dentre outros vários adjetivos que se queira dar. 

É interessante: vivemos numa sociedade que se diz "evoluída", "aberta" e sem preconceitos, onde tudo é permitido e o que conta é a consciência de cada um no momento de escolher o que é o melhor ou não para si, mas se uma mulher resolve, de livre e espontânea vontade, sem a pressão de um "agenciador", usar o próprio corpo para proporcionar prazer e cobrar por isso, ela perde completamente qualquer status social que uma mulher "digna" possa ter. Por que? "Nossa, ela cobra por sexo". Tá, e daí? Ela está ganhando o dinheiro dela, sem prejudicar ninguém, honestamente - sim, honestamente - explorando uma necessidade humana: a necessidade de sexo. 

Todos nós, desde Alexandre Frota ao padre Fábio de Melo passando por Inri Cristo, temos desejo de sexo. Tesão é uma sensação humana (e tesão é nome científico, tá?) inerente ao nosso biológico, uma necessidade como outra qualquer. Sentimos vontade de rir, de viver aventuras e de transar. Temos os comediantes que nos fazem rir, parques e passeios que proporcionam aventuras, mas se uma profissional resolve proporcionar sexo vira uma vagabunda. Dizem até que a prostituição - nomezinho esse carregado de um estigma pejorativo horrível - é a profissão mais antiga do mundo. Sabe por que? Muito antes da necessidade de jogar vídeo game, de falar no celular, de ver TV, de ir ao cinema, temos vontade de fazer sexo. Sexo é uma necessidade básica. Mas se alguém resolve fazer disso um mercado a ser explorado, vira "puta". 

Sim, vivemos num mundo capitalista, onde se cria necessidades para se vender facilidades. Mas, curiosamente, a necessidade que não se cria, se nasce com ela, é exatamente a mais reprimida. A série O Negócio, exibida em 2013 pela HBO, mostrou na ficção o que existe na realidade: um mercado de desejo sexual a ser explorado, e mulheres inteligentes e bonitas querendo explorar esse nicho. O sexo, nesse sentido, vira um produto a ser vendido. Totalmente sem romantismo, não? Mas há algum crime nisso? 

O que estou tentando dizer - não sei se consegui ser claro, o tema é mais complexo do que se imagina - é que vivemos numa sociedade hipócrita, onde o sexo serve está presente em tudo (na propaganda, na TV, no comércio, nos esportes), mas se alguém resolve fazer uso profissional dele para viver é tachado de "imoral". Como assim, imoral num país onde o carnaval é recheado de conotação sexual do primeiro ao último dia? Como assim imoral num país que se orgulha de ter as mulheres mais bonitas do mundo? Meu amigo, imoral é usar da boa fé de inocentes para conseguir vida fácil, e se tem alguém que não tem vida fácil são as profissionais do sexo, ou as "acompanhantes", todos os dias expostas a homens machistas que as veem simplesmente como máquina de transar, que ignoram completamente a humanidade dessas moças e que as exploram como se fossem uma fruta em que se aproveita a polpa e joga o bagaço fora. Nesse sentido, vejo o trabalho das acompanhantes como uma reafirmação do valor feminino: uma mulher é muito mais do que um produto descartável. Quer usar sem se envolver? Pode ser, mas no mínimo terá que pagar por isso. 

Alguns vão argumentar que nem sempre o trabalho de uma acompanhante é glamuroso e cheio de lição como os que descrevi. E é verdade. Existem, sim, mulheres que vivem em regime quase escravo, sendo forçadas por um cafetão cruel a transarem com homens nojentos em troca de um tratamento dentário ou de um café da manhã nos interiores do Brasil. Existem adolescentes que mal menstruam e já entram no submundo da exploração sexual. Sim, isso existe, é crime e deve ser combatido. O que não dá é pra comparar a exploração sexual com o trabalho de moças que optam, por livre vontade, por trabalhar com o sexo. São coisas totalmente diferentes. 

Existe também toda uma visão romantizada do sexo, uma visão religiosa que o vê como complemento do amor. E acredito nisso também. Não há amor sem sexo, mas há sim sexo sem amor. São coisas diferentes. Se você tem alguém que ama, com quem compartilha sua vida, irá desejá-la e querer transar com ela. Se não tem, irá querer satisfazer sua necessidade de sexo do mesmo jeito. Que seja então com alguém especialista nisso. 

Mais amor, e mais sexo, por favor!


Publicado originalmente no blog Ave, Maria Rita!

"Embargos Infringentes" e a velha discussão sobre o legal X moral



Você sabe que um assunto se popularizou quando vê pessoas compartilhando imagens no Facebook com alguma crítica ou alguma palavra de ódio sobre ele. Assim aconteceu com os tais embargos infringentes, que foram o assunto da semana passada. Muito difícil que alguém continue falando por muito tempo sobre isso, pois a memória do brasileiro é curtíssima. Mas enfim, a decisão do STF de aplicar os tais embargos no julgamento do Mensalão deu o que falar. Petistas assumidos e não-assumidos comemoraram, não petistas e artistas reclamaram, juristas se dividiram, enfim, mais uma vez o mensalão voltou à tona, mas ainda sem nenhuma resposta aparente. E a velha discussão do que é Legal X o que é moral também voltou. 

Mas todo mundo sabe o que são esses tais embargos?

Boa pergunta: o que são embargos infringentes?
É meio complicado de explicar, mas vamos lá: quando o sujeito é condenado por mais de um crime, os membros do STF votam por cada crime cometido, para escolher a pena, o tempo de prisão, etc. Os embargos infringentes são um tipo de recurso, mas não do processo inteiro; apenas para os crimes em que a votação dos Ministros foi apertada, como 6 a 5, pois isso pode sugerir que o tempo para a formulação do voto foi pouco, por isso a votação apertada. Os embargos infringentes são uma forma de o reu tentar se explicar mais uma vez e, se for o caso, sanar as dúvidas dos ministros. 

Mas os embargos infringentes podem mudar alguma coisa no processo?
Só nos crimes em que os embargos forem apresentados. Em outros em que a votação pela condenação foi folgada não existe a possibilidade de alteração da pena. 

Desculpa, mas ainda não entendi pra que serve esse embargo.
É um tipo de recurso. É uma nova chance de o condenado se explicar para a Justiça. Mas apenas no crime em que a votação dos Ministros do STF foi apertada. 

Então isso não parece ser bom?
Em partes, sim. Caso seja realmente condenado, ninguém poderá alegar que não teve chance de se explicar. Os embargos infringentes são um complemento ao direito de defesa. 

Então por que tanto barulho sobre esses embargos?
Porque na teoria tudo funciona perfeitamente, como rezam os Vade Mecum dos cursos de Direito. Mas na prática o buraco é um pouco mais embaixo. Alguns dos reus que tiveram direito aos embargos infringentes são pessoas ilustres dentro do partido da presidente Dilma, e é muito do interesse dela que esses membros ilustres (Dirceu & cia) sejam absolvidos, tanto para limpar a imagem manchada do partido como para não prejudicar a reeleição dela. Acontece que vários dos Ministros do STF foram indicados por ela, como Teori Zavascki e Luis Roberto Barroso, que inclusive foi advogado do PT; isso sem falar no Lewandowsky, que parece ter sido predestinado ainda no colo da mãe a beneficiar todo e qualquer mensaleiro que chegue a julgamento no STF. Enfim, esses Ministros podem se sentir numa espécie de "obrigação" de agradecer a presidente pela indicação ao STF, e beneficiar os mensaleiros como forma de agradecimento. 

Sério que rola tudo isso no STF?
Pode ser que sim, pode ser que não. Só a gente lembrar que o Luiz Fux, que também foi indicado pela presidente Dilma e com apoio do Cabral e do Palocci, votou contra os embargos. Ah, vale lembrar também que o aclamado Joaquim Barbosa foi indicado pelo ex-presidente Lulla. Na teoria, os Ministros devem ter liberdade para votar de acordo com sua consciência. Na prática é difícil dizer se isso acontece. 

Por que você disse que os embargos infringentes são Legais?
Legais no sentido de estarem totalmente dentro da Lei, e sim, eles estão. O artigo 530 de 11 de janeiro de 1973 (atual Código de Processo Civil) diz que: 
Cabem embargos infringentes quando o acórdão não unânime houver reformado, em grau de apelação, a sentença de mérito, ou houver julgado procedente ação rescisória. Se o desacordo for parcial, os embargos serão restritos à matéria objeto da divergência.
Ou seja, ao aceitarem os embargos infringentes e reabrirem o julgamento de alguns dos acusados, os Ministros do STF não cometeram nenhuma ilegalidade, nem contribuíram com a impunidade, nem baboseira nenhuma do que vem sendo dito na internet. .Eles apenas estão praticando algo que está na Lei. Só isso.

E por que não são morais?
Porque, apesar de estar totalmente dentro da Lei, os embargos são uma das provas da morosidade da justiça brasileira. Tudo aqui é muito lento. Nossa Justiça tem uma infinidade de recursos que só beneficia o acusado e o ajuda a ganhar tempo para se defender, criar estratégias achar um meio de sair impune. Ainda mais se pensarmos num processo como o do Mensalão, em que houve toda a possibilidade de defesa possível. Ainda precisa de mais uma? Além disso há o problema já citado dos novos Ministros do STF, que tem possibilidades de atuarem em favor da presidente e de seu partido, o que beneficiaria os reus petistas. Mas isso é especulação. 

O que nos resta?
Acompanhar os julgamentos, se inteirar do assunto e votar direito na eleição do ano que vem, pra pelo menos tentar evitar que novos mensaleiros surjam no país - ou que os antigos voltem. 

Os conflitos na Síria: você está por dentro do assunto?

Bashar Al-Assad, presidente da Síria

O que se vê na Síria infelizmente não é novo. Angola, Espanha, Iugoslávia, Bósnia e Herzegovina (que culminou com a destruição de Sarajevo), Sudão e vários outros países africanos e em todos os continentes passaram por guerras sangrentas e trágicas, que mataram muita, muita gente. Com a Síria não tem sido diferente. Todos os dias ela tem sido notícia em qualquer telejornal, portal e qualquer outro meio de comunicação. O país inteiro virou um palco de guerra que já contabiliza mais de 100 mil mortos e mais de 2 milhões (sim, dois milhões!) de refugiados. Mas enfim, o que está acontecendo na Síria?

Antes de tudo, o que é uma guerra civil?
Guerra Civil é quando o próprio povo de um país entra em guerra entre si. É diferente de dois países que resolvem brigar, como vimos nas duas Guerras Mundiais em que vários países lutaram um contra o outro e mais recentemente com as provocações entre as duas Coreias, sem falar na eterna provocação entre Irã e EUA, ou Israel e todo o mundo árabe. Numa Guerra Civil grupos de pensamento ou ideologia diferentes dentro do mesmo país brigam entre si e essa briga se torna tão intensa, tão impossível de se conciliar que chega às vias de fato, com a guerra armada. 

Por que a Síria está em Guerra Civil?
Tudo começou em março de 2011, quando um grupo de manifestantes em Deera, no sul da Síria, pediu a libertação de 14 estudantes presos por terem escrito num muro "as pessoas querem a queda do regime", lema dos revolucionários na Tunísia e no Egito. Naquela época as pessoas queriam apenas um pouco mais de liberdade para expressar sua opinião. Só isso. O governo sírio deu uma resposta exageradíssima aos protestos até então totalmente pacíficos: forças do governo abriram fogo contra os manifestantes, matando quatro pessoas. No dia seguinte, no momento do funeral dessas quatro vítimas, o governo abriu fogo novamente, matando mais uma pessoa. Essa reação desproporcional do governo, ao invés de combater os protestos, acabou impulsionando ainda mais pessoas, que agora se reuniam não só em Deera, mas também em Baniyas, Homs e na periferia de Damasco, a capital do país. Esses protestos acabaram se tornando em guerra entre as forças do Governo sírio e os manifestantes, chamados de "rebeldes". 

Mas o que os rebeldes querem?
No começo queriam apenas um sistema político mais democrático. A medida em que a reação do governo foi ficando mais intensa, as pessoas começaram a pedir a saída do presidente sírio.

E por que essa gente quer tirar o presidente? 
Bashar Al Assad, o presidente sírio e o cara fofinho da foto acima, está no poder desde 2000, ou seja, há 13 anos. Isso sem falar que ele recebeu o poder de seu pai, que governou a Síria por 30 anos. A Síria é hoje uma propriedade de família, onde os Assad mandam e desmandam desde há muito tempo.

Mas se o Assad pai ficou 30 anos no poder e o Assad filho já estava há 11 antes de os protestos iniciarem, por que só agora vieram se revoltar?
A Síria é mais um dos países que se inspiraram na Primavera Árabe, que começou em 2010 na Tunísia. É assim: não e só a Síria que tem um governo que passa de pai para filho. Era assim em quase todos os países árabes. As pessoas começaram a se revoltar e pedir que isso acabasse. Deu certo na Tunísia, no Egito (mais ou menos...), no Líbano. Esses países também tiveram altos conflitos internos, mas duraram menos tempo. 

Mas por que os protestos deram certo nos outros países e não deu até agora na Síria?
Primeiro porque o Assad não larga o osso nem f*dendo. Segundo porque lá há pessoas que defendem o governo sírio com unhas e dentes, tipo uns jornalistas progressistas que a gente vê por aí... Só que aqui no Brasil o conflito fica só nas palavras. Um chama o jornalista da Globo de "negro de alma branca", o outro chama o presidente de "minha anta" e fica só nisso. Lá os rebeldes se armaram e enfrentaram o governo. O governo, que já vinha metralhando os manifestantes há tempos, resolveu intensificar o combate. Aí deu a m*rda que deu. 

Mas o presidente da Siria até agora não fez nada pra resolver isso?
Pois é, ele até tentou, no início, fazer algumas mudanças. Anunciou uma reforma política que abriu espaço para mais partidos além do oficial do governo concorrerem nas eleições e deu anistia a vários presos políticos. Mas para os rebeldes isso foi pouco. 

E quem são esses rebeldes?
Aí está outro problema: a oposição na Síria nunca teve muita força, algo meio parecido com o que se vê no Brasil hoje... Tanto que os protestos por mudanças partiram de ativistas independentes. A oposição, que precisava da forcinha de alguém, viu aí a oportunidade de fazer frente ao governo de Assad. Essa oposição, aliada aos manifestantes, criou o Conselho Nacional Sírio, uma tentativa de organizar os protestos, para que não ficasse mais bagunçado do que a coisa já estava. O problema é que quem está organizando esse Conselho é a Irmandade Muçulmana, de origem sunita e perseguida pelo presidente atual desde sempre, mas que não é muito bem vista no resto do mundo. Só pra ter uma ideia, a nova confusão do Egito que culminou com a deposição do presidente eleito girou exatamente sobre essa Irmandade Muçulmana. E é por causa da presença dessa Irmandade é que o Conselho Nacional Sírio não consegue se unir. Enfim, os opositores, além de brigar contra o governo, brigam entre si. 

Quem apoia o governo sírio?
Os alauítas, etnia árabe de onde vem o atual presidente, e os cristãos sírios. Só que juntando todos os cristãos e todos os alauítas do país não se chega a 10% da população. São a minoria, mas que tem ao seu favor todo o peso militar do Governo. 

Então tem mais coisas em jogo?
Infelizmente, sim. Além do desejo de democracia sólida de pessoas bem intencionadas, há um jogo de interesses políticos da parte de partidos de oposição. A Irmandade Muçulmana é louca louquinha pra assumir o governo sírio e tornar um país uma república islâmica, por mais que negue isso, e viu nesses protestos sua chance de ouro. Os cristãos, aliados do governo, temem um possível governo muçulmano e uma perseguição que certamente aconteceria, se a Irmandade chegasse ao poder. Além disso tudo está a interminável guerra de etnias que mata pessoas desde que o mundo é mundo. Alauítas contra sunitas e por aí vai. Sem falar que nessa guerra toda quem está dando o ar da graça é a simpática e bonitinha Al Qaeda, aquela do nosso amigo Bin Laden. A Al Qaeda é de origem sunita, a que está lutando contra o governo, e os terroristas viram nesses protestos uma boa oportunidade de chegar ao poder e aumentar sua influência no mundo árabe para cumprir sua missão no mundo: derrubar torres nos EUA. 

E os outros países não vão fazer nada?
Pois é, é isso que está em discussão no momento. Quem teria autoridade pra fazer alguma coisa é a ONU, mas ela ficou numa saia justa porque de um lado dela estão os EUA, simpáticos aos rebeldes, e do outro China e Rússia, que são aliados do governo sírio desde sempre. Se apoia um arruma intriga com o outro. E na boa: arrumar intriga com os EUA ou com a Rússia pode ser o início do fim.  

Por isso os EUA querem atacar a Síria?
Mais ou menos. Devido a essa omissão proposital da ONU os EUA resolveram fazer alguma coisa por conta própria. O problema é que a gente já sabe a forma dos EUA de resolver conflitos: matando milhares de inocentes pra dizer que o governo tem que parar de matar inocentes. Assim foi no Afeganistão e no Iraque. E assim será na Síria, se eles realmente atacarem o país. Pior: se os EUA resolverem mesmo partir pra cima a Rússia, aliada de Assad, já prometeu ajudar o amigo sírio e armar o governo para se defender dos EUA. Aí a coisa, que já tá feia, vai ficar pior ainda, se é que dá pra piorar. Ah, os EUA dizem também que querem atacar a Síria para impedir o governo de usar armas químicas.

Bem lembrado. O que são essas armas químicas? O que é o tal gás sarin?
Em Dirahian, próximo a Chanasir, o governo sírio mantém uma base de testes de armas químicas, de destruição em massa. O sarin é um neurotóxico de alto poder letal que, quando respirado, vai para a corrente sanguínea e bloqueia a respiração, causando parada cardiorrespiratória em seguida. Aí e só esperar a morte. O uso desse e de qualquer outra arma química é proibido pela ONU e considerado crime de guerra. Acontece que alguém usou esse tal gás há alguns dias, ocasião em que milhares de pessoas morreram. Tudo leva a crer que tenha sido o governo quem usou o gás contra os rebeldes. 

Quando e como isso vai acabar?
Boa pergunta! Só quem sabe é Deus, ou Allah, ou o nome que se queira dar. Os rebeldes só param quando o presidente sair. Assad já disse várias vezes que não sai do governo. Ambos lutam ferozmente um contra o outro. Enquanto isso tem muita gente morrendo, gente que não tinha nada a ver com o peixe, sem falar nos que tem que fugir do país. Só nos resta acompanhar as notícias e torcer pela Síria. 

Mas quem é o Amarildo?


Digamos que 40% do Brasil está perguntando: cadê o Amarildo? 20% não está nem aí pra quem é ou deixa de ser o Amarildo. E outros 40% querem saber outra coisa: quem é esse tal Amarildo que todo mundo fala?

É pra esses últimos que esse post é direcionado.

Vamos lá, quem é Amarildo? Algum cantor novo de funk melódico, tipo o Naldo e a Anitta?
Não, ele não canta nada, não. Na verdade é um pedreiro morador de uma favela do Rio que sumiu depois de ter sido levado pela Polícia para "averiguação".

Mas o que aconteceu com ele?
Ele foi abordado na porta de casa em 14 de julho por quatro policiais da UPP da Rocinha, que o confundiram com um traficante da região. Foi levado para a sede da UPP para averiguação, e depois disso sumiu. Ninguém teve mais qualquer informação sobre ele.

Ah! Mas só isso? Tanto barulho só por isso?
Pensa: um cara comum, sem nenhum antecedente criminal conforme foi confirmado pela Polícia, é levado por policiais e depois some do nada. Não existem câmeras que provem onde ele esteve, pra onde foi. Nada. 

Mas o que querem dizer: que ele foi morto pelos policiais?
Não é o que se diz, mas a Polícia precisa explicar o que aconteceu com ele. Chegaram a fazer um exame de DNA numa mancha de sangue encontrada numa viatura da Polícia, mas não era o sangue do Amarildo. Enfim, não é possível dizer o que aconteceu com ele, mas a história é muito estranha. 

Mas será que ele era tão inocente assim? Sei lá, morador de favela...
No Brasil todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Mas na prática não é assim, e essa ideia está não só nas Instituições, mas na cabeça do brasileiro, como nessa pergunta. Sabemos muito bem que pobre, favelado, negro nem sempre é inocente até que se prove culpa. Na verdade, as vezes na prática acontece o oposto. Primeiro se acusa e se faz algum tipo de "justiça", depois averigua se o infeliz realmente tinha alguma culpa. 

Mas não pode ter sido algum traficante que tenha matado o Amarildo?
Quem sabe? Como não existem suspeitos nem nada que conduza a nenhuma linha de investigação, qualquer hipótese e levada em conta. O fato é que tem meio mundo atrás dele: Ministério Público, a Divisão de Homicídios da polícia, até a Anistia Internacional está de olho no caso. 

Mudando de assunto, esse Amarildo parece o Zina do Pânico, né?
É, parece... ¬¬

Onde está o Zina, agora?
Olha, não vamos perder o foco do assunto, OK?

Verdades e mentiras sobre o Auxílio-Reclusão


Ah, os internautas brasileiros e sua mania de espalhar informação antes de checar a fonte ou a veracidade do que se diz. O Facebook hoje é a mãe do disse-que-me-disse, uma espécie de telefone sem fio universal, por onde circulam palavrinhas de ódio de revolucionários de sofá que se indignam, mas não sabem exatamente com o que. 

Quer uma prova disso? Publique algo sobre o Auxílio Reclusão no Facebook e aguarde palavras de ódio como "no Brasil o bandido recebe salário pra fica preso", "nós trabalhamos pra sustentar filho de bandido", "a bolsa-cadeia é maior que o salário mínimo" e outras coisas que cairiam muito bem na boca de Marcelo Rezende mas que não correspondem aos fatos. 

Tá, então o que é o auxílio-reclusão?
É um valor pago pelo INSS à família de uma pessoa presa em regime fechado ou semiaberto. 

Todo preso recebe auxílio-reclusão?
Não. Só os presos em regime fechado e semiaberto, como eu disse antes. Se o infeliz for para a condicional perde o auxílio. Além disso, pra ter direito o preso tem de ser contribuinte regular da Previdência - o que, convenhamos, reduz e muito o número de presos com acesso ao direito. E se fugir da prisão perde na hora o auxílio. 

E quanto é pago como auxílio-reclusão?
O valor máximo pago de auxílio-reclusão no Brasil é de R$ 975,00. O valor a ser pago é calculado com uma fórmula nem muito difícil: 80% da média dos maiores salários que a pessoa já tenha recebido. Assim: soma-se todos os maiores salários já recebidos pela pessoa e tira a média. Desse resultado, paga-se 80% disso como auxílio reclusão. Se o total da conta ultrapassar R$ 975,00, esse é o valor máximo pago. 

Mas mesmo assim pensa: receber uma graninha dessa pra cada filho dá uma força legal, ainda mais se o infeliz tem muito filho...
Pera: não é pra cada filho. 

Não?
Não, o valor de auxílio reclusão é único, independente de ter 1 ou 20 filhos. 

Mas mesmo assim: quem é honesto e trabalha precisa pagar a bolsa reclusão desses vagabundos. 
É, essa é uma outra história, mas o auxílio existe para prover recursos para a família da pessoa que foi presa, e muitas vezes não tinha nenhuma outra fonte de renda. Pense que na maioria desses casos há crianças - muitas, pois se tem uma coisa que brasileiro sabe fazer é filho - que não pediram pra nascer nem tem culpa de serem filhas de bandido. Quem provê o sustento dessas crianças? 

Eu ainda acho isso é um absurdo. Eu tenho que trabalhar para pagar o material de escola de filho de bandido. 
É, mas é assim que funciona o sistema de previdência de qualquer país. Alguns pagam para que, quando precisar, todos tenham acesso. É mais ou menos igual ao seguro do carro: você paga mesmo sem usar, e sabendo que tem outros que estão sendo beneficiados pelo seu dinheiro. 

Enfim, resumindo: só tem direito ao benefício o preso que era contribuinte do INSS antes de ser preso, tem que estar em regime fechado ou semiaberto, o valor máximo pago é de R$ 975,00, uma vez por mês, independente da quantidade de filhos. 

Entendido?

O que os protestos contra o aumento das tarifas de ônibus nos mostram?



Todo ano, em toda grande cidade, é a mesma coisa: a tarifa de ônibus aumenta e grupos organizados manifestam contra esse aumento. A prefeitura bate o pé e diz que não irá reduzir o valor da tarifa e fica por isso mesmo. Os manifestantes guardam suas bandeiras, o PSOL que sempre se aproveita de qualquer evento que tenha o título de "manifestação" pra tentar aparecer volta a ser insignificante como sempre, as máscaras do Anonymous usadas nos protestos voltam para o guarda roupa junto com os bonés e bermudas e os revoltados já começam a pensar na manifestação do ano seguinte, quando houver o novo reajuste. Assim foi em SP em 2011, quando o então prefeito Kassab aumentou a passagem de R$ 2,70 para R$ 3,00 e manifestantes protestaram de forma tão desordeira e violenta que chegaram a ir em frente a casa do então prefeito. Assim está sendo em 2013. A polícia de SP, que já é conhecida por não ser adepta do afago e do carinho afetivo, responde à confusão da mesma forma: balas de borracha, cacetadas, pancada e outras formas saudáveis de se manter a paz e a harmonia entre todos. 

Sim, a passagem em SP é caríssima. Como disse o Zé Simão, por R$ 3,20 o ônibus deveria vir me buscar na porta de casa - calma, isso é uma piada, é bom avisar! A realidade do transporte público é bem conhecida por quem o usa todos os dias: ônibus lotados, sujos, velhos, motoristas mal informados que mais parecem selvagens e passageiros mais selvagens ainda. Assim é viver na maior metrópole da América Latina. Sim, também apoio manifestações populares por melhores condições de transporte público, afinal, pagamos caro para isso, e não temos, nem nunca tivemos, o retorno devido. Sim, acho fascinante que pessoas se organizem e mobilizem tanta gente em torno de um único objetivo. Mas é o objetivo que me intriga.

O Brasil, por mais que a petistada negue, é uma terra sem lei, onde manda quem tem mais dinheiro e obedece quem depende da Justiça. Somos um país mal organizado, onde as coisas são feitas na base do "jeitinho", sempre na última hora. Somos um país onde poucas coisas funcionam de fato (sim, há coisas nesse país das quais podemos nos orgulhar) e onde há muito o que reivindicar. Somos um país de uma classe política falida, mergulhada num sistema paquidérmico que serve apenas para beneficiar a si próprio. Somos um país onde pessoas morrem em corredores de hospitais. Onde se morre por não ter mais que R$ 30,00 para se entregar a um bandido. Somos um país onde se rouba muito dinheiro - haja vista o mensalão petista e os milhões desviados dos nossos bolsos com a Copa, PAC e outras obras faraônicas. Somos um pais com um sistema prisional falido, que não recupera ninguém e sequer mantém preso. Somos um país que já está declarando falência na educação dos seus adolescentes, tanto que queremos mandá-los para a cadeia antes dos 18 anos - quanto mais cedo nos livrarmos desses demônios melhor para nós, não é? Somos um país intolerante, onde se morre por pensar diferente.  Resumindo: somos um país falido como nação. Desculpem a forma trágica, mas essa é a realidade que vemos quando olhamos nosso país sem a trava governista que tenta nos empurrar goela abaixo um pais perfeito e bem sucedido. 

Ou seja, motivos para protestarmos nós temos. Protestar por mudanças na legislação judiciária, pelo fim dos altíssimos salários dos nossos políticos, pela redução na quantidade de deputados (513 deputados é uma piada), por leis mais duras contra adolescentes infratores, por políticas de inclusão dos jovens. Motivos para protestar é o que não faltam. E em meio a tudo isso esses manifestantes em SP, Rio e outras cidades protestam contra... Vinte centavos a mais no valor da passagem - aliás, se levarmos em conta que a maioria dos protestantes são universitários que usam bilhete de estudante, o aumento para eles foi de dez centavos! Tá, eu sei, não é o valor, é o ato de aumentar o preço de um transporte que já não vale a metade do que se paga. Sim, mas antes de quebrar tudo, é necessário conhecer o sistema de transporte público em SP. 

Em SP o sistema de transporte é coordenado pela São Paulo Transportes - SPTrans, órgão ligado à secretaria dos transportes, e operado por consórcios de empresas privadas que recebem dinheiro da prefeitura para operar. Esse dinheiro que a prefeitura repassa cobre custos com salários de motoristas e cobradores, combustível, manutenção e outros gastos. Com a prefeitura fica a responsabilidade de trabalhar a mobilidade urbana e providenciar carros para que essas empresas possam dirigir. Nesse convênio com esses consórcios a prefeitura repassa valores bilionários por mês, valores que a prefeitura recebe em parte de volta com o preço da passagem paga pelo usuário na catraca. Sim, o que pagamos diariamente na catraca não é o suficiente para cobrir todo o custo com o transporte público. Todos os anos há aumento de custos com combustível, aumento de salários, e esses custos são todos repassados a prefeitura, que precisa investir ainda mais no transporte. Quando o aumento se torna tão alto que a prefeitura passa a não ter mais como cobrir o custo, esse aumento é repassado ao usuário, que paga mais caro na catraca. É meio difícil de entender, mas uma coisa é fato: gerir o transporte público em SP é uma missão muito difícil, além de ser um serviço caríssimo. 

Enfim, pedir para baixar a passagem sem conhecer todos esses trâmites internos do sistema de transporte da capital é quase infantil, é como o filho que reclama que o pai parou de comprar bolachas da marca X, mas o filho não sabe que aquela marca de bolacha teve aumento de preço e o salário do pai foi reduzido. O que eu quero dizer é o seguinte: vamos reclamar da péssima qualidade do transporte público? Sim, mas tenha uma reclamação específica, pautada em motivo sólido e com conhecimento de causa. Protestar por protestar, sem uma causa específica e sem motivos declarados, só porque na Turquia e Síria protestam assim e lá parece legal, é baderna. 

Mas voltando ao que ia dizendo, até concordo com as manifestações, e não digo que sou totalmente contra quando alguns sentem a necessidade da força física ou de algum tumulto para chamar a atenção das autoridades. Reconheço que as vezes alguns atos extremos são necessários. Mas há demandas muitíssimo mais importantes e urgentes para serem motivos de protesto. 

Pra concluir, e respondendo a pergunta-título, o que os protestos contra o aumento das tarifas de ônibus nos mostram? Mostram que a indignação do brasileiro é forte, mas seletiva. Nos indignamos contra problemas mais simples do cotidiano, e principalmente quando os objetos da indignação são pessoas já não muito queridas entre os "moderninhos". Quando se trata de protestar contra estruturas estabelecidas e fortes, a coisa murcha totalmente. Para usar uma frase já conhecida por alguns, a indignação do brasileiro é como "coar mosquitos, mas engolir camelos". E outra coisa interessante: nossa indignação é maior quando nosso bolso é atingido diretamente. Não que a corrupção não nos traga prejuízos, pois trás, mas os efeitos negativos da corrupção não são sentidos diretamente, então não nos incomodam, Já o aumento da passagem nos atinge diretamente. Os milhões desviados sob o comando de José Dirceu não alteraram seu dia a dia, mas amanhã cedo você vai ter que desembolsar vinte centavos a mais, e somando isso em um mês a quantia será considerável. É mais conveniente protestar contra aquilo que mexe com meu bolso do que aquilo que mexe com a democracia, com o futuro do meu país. Algo como "contanto que eu pague menos, que se dane o rumo que o país está tomando". Lastimável isso!

Então, que tal usar toda essa estrutura e organização para protestar por causas mais importantes e necessárias? Se a causa do protesto mudar, talvez eu até vá lá para dar meu apoio. Protestar por uma causa que nem os próprios manifestantes sabem direito como funciona, tô fora!

Pronto, falei!

"Bolsa-crack" e o festival de críticas sem fundamento


Vamos lá: pago uma Coca-Cola (desculpe aí, pastor Marcos) pra quem me explicar com detalhes o que é a tal "bolsa-crack" que virou o novo motivo de protestos dos revolucionários de sofá da internet. Alguém? 

Pra começo de conversa não existe nenhuma Bolsa-Crack. Existe uma realidade em São Paulo - e no resto do Brasil:  uma legião de viciados pelas ruas precisando de tratamento e não existem vagas para todos eles nos hospitais públicos. Além dos que estão nas ruas, há os que foram acorrentados em casa pela mãe numa atitude de desespero que teve de escolher entre cercear a liberdade do próprio filho ou vê-lo ser destruídos aos poucos pelo consumo desenfreado de drogas pesadas. Esses tampouco tem vagas disponíveis nos hospitais públicos. Então temos aí uma conta que não fecha: mais pacientes precisando de tratamento do que hospitais com vagas disponíveis para esse tratamento, certo? Lembrando que se você é um desses que acha que o problema das drogas deve ser tratado à bala, aconselho que desista de ler o post e vá ouvir o que o Bolsonaro tem a dizer. 

Em qualquer governo de qualquer estado desse país, se forem perguntar ao secretário de saúde como resolver o problema do vício em drogas você irá ouvir a mesma resposta: "estamos trabalhando exaustivamente contra o problema das drogas", "temos projetos para aumentar os leitos nos hospitais para tratamento", temos projetos para construir X novos hospitais", e enquanto esses leitos e hospitais não ganham forma física mais gente se degrada pelas ruas. Por outro lado, São Paulo tem clínicas particulares excelentes para tratamento de dependentes químicos, com padrão inquestionável de qualidade, e com vagas ociosas por um motivo simples: o tratamento nessas clínicas são caros, e são poucos que podem pagar por esses tratamentos. 

Recapitulado: temos pessoas precisando de tratamento contra a dependência química, os hospitais públicos não tem vagas suficientes, e temos clínicas particulares com vagas ciosas por serem caras. Está dando pra acompanhar até aqui?

O que o Governo do Estado de São Paulo, na pessoa do sr. Exmo Governador Geraldo Alckmin picolé de chuchu resolveu fazer? Ao invés de mandar os dependentes químicos esperarem por vagas em hospitais públicos, o Governo está levando esses mesmos dependentes químicos para essas vagas ociosas nas clínicas particulares. Tá, mas elas cobram caro por isso. Quem vai pagar? Para isso o Governo de SP criou o Cartão Recomeço, que custeia o tratamento dessas pessoas nas clínicas particulares. A família do dependente, depois de provar que não tem condições de custear por conta própria, recebe o cartão, que é usado apenas para pagar as despesas com o tratamento que a clínica aplicar ao dependente. Existe um limite para essas despesas? Sim, o valor limite é de R$ 1.350,00 mensais. A família recebe algum valor em dinheiro desse total? Nem um centavo, nem vai existir dinheiro físico nessa transação entre família/clínica/Governo.  Além de custear as despesas com a clínica, o cartão serve para que o Governo do Estado tenha o controle da frequência do dependente, para que se tenha a certeza de que ele está frequentando a clínica e está realmente recebendo o tratamento prometido. O benefício é dado por até seis meses em 11 cidades do interior de São Paulo. Não tem na capital? Não, porque o Governo levantou a quantidade de vagas da capital e viu que são suficientes, já que existem aqui os Cratods e uma parceria do governo com a Missão Belém. 

Então vamos confrontar a realidade com as críticas feitas na internet. Pelo que vem sendo falado, alguém criou uma "bolsa-crack", uma ajuda em dinheiro para a família do dependente, que pode usar como quiser, até mesmo para comprar drogas, se for o caso. A realidade é outra: o Governo vai custear o tratamento de dependentes em clínicas particulares. 

Alguns vão dizer: mas com isso o Governo está assumindo que fracassou na política de recuperação de dependentes químicos. Vamos combinar uma coisa: o que está em discussão não é se alguém fracassou ou não em alguma política de prevenção, se as drogas devem ser liberadas ou não, se a Marcha da Maconha é legítima ou não. O que está em discussão nesse momento é que existem pessoas, seres humanos, se degradando nas ruas. Depois a gente debate políticas públicas, se a maconha é mais leve que o álcool e blá blá blá. Primeiro vamos tentar ajudar a sair do vício quem quer ser ajudado, beleza?

Ficou claro? Vocês prometem que vão pensar duas vezes antes de comparar o projeto do Governo de São Paulo às famigeradas bolsas lulistas? Até porque se você chegou até o final desse post, com certeza você é uma pessoa esclarecida o suficiente para se informar antes de sair repetindo críticas vazias de tirinhas mal desenhadas espalhadas no Facebook pelos órfãos do Orkut.

É isso. Espero ter ajudado. 

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